Victoza: desconfiemos do milagre

September 10th, 2011 § 2 comments

por Bruno Marques (médico endocrinologista)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta semana, a revista Veja publicou, como matéria de capa, os efeitos anti-obesidade da medicação Victoza, cujo princípio ativo é a liraglutida. A liraglutida mimetiza os efeitos de uma substância já existente no nosso organismo, o GLP-1. Esta substância é secretada pelo tubo digestivo melhorando a secreção de insulina, dentre outras coisas e, em última instância, reduzindo o peso. O problema é que, no nosso organismo, o GLP-1 é rapidamente degrado por uma enzima, chamada DPP IV. A liraglutida, por outro lado, “foge” desta enzima, e, por isso, consegue agir por muito mais tempo que o GLP-1, sendo capaz de reduzir a glicose e o peso de maneira clinicamente significativa.

Oficialmente, a liraglutida foi liberada pelas autoridades brasileiras para uso em diabéticos. Porém, como há uma grande demanda por tratamento farmacológico da obesidade, visto a pandemia vivida pelo mundo ocidental, cria-se naturalmente uma pressão pelo uso da liraglutida em obesos não-diabéticos. Este uso é também chamado de off label, ou seja, “fora da bula”.

O anúncio desta medicação em uma mídia não científica – ou seja, voltada para o público em geral – é compreensível e poderia ser até louvável, se ponderada, pois a divulgação de conhecimento melhora a qualidade e exigência dos pacientes e obriga os médicos a se manterem atualizados para corresponder a esta expectativa. Porém, a maneira como essa divulgação é feita, prometendo mil e uma maravilhas, preocupa bastante.

Já vimos esse filme antes: uma nova droga vai revolucionar o tratamento da obesidade, ganha as capas de revistas, há uma procura em massa, prescreve-se a droga e, ao final, constata-se que isso não mudou radicalmente a obesidade como problema de saúde pública. Isso aconteceu, por exemplo, com o Xenical, que continua disponível e útil para prática clínica, mas não causou a revolução alardada pelos meios de comunicação. Há ainda um exemplo pior: o Acomplia (rimonabanto), divulgado como a “pílula da barriga”, que foi rapidamente retirado do mercado por ser relacionado a casos de suicídio! Não estamos falando de uma droga lançada obscuramente através da internet e comprada em mercados paralelos. O Acomplia foi lançado pela indústria farmacêutica, divulgada exaustivamente em congressos médicos e liberado pelas autoridades legais de vários países, inclusive as do Brasil.

Não deve ser criada uma expectativa irreal em relação à medicação, como se somente o remédio fosse resolver um problema crônico e, em geral, associado a vários aspectos complexos do comportamento pessoal, como a relação com a comida, o sedentarismo, depressão e transtornos alimentares, tais como como a compulsão alimentar.

Por isso, uma equipe especializada é fundamental no tratamento da obesidade – uma equipe que seja capaz de avaliar o paciente globalmente, em seus aspectos clínicos, psicológicos e comportamentais. Além disso, a implementação das mudanças de estilo de vida aumentam significativamente a probabilidade de não só promover a perda de peso, mas de manter esta perda de peso.

Essa não é uma crítica à medicação especificamente, mas ao modo como ela é, muitas vezes, divulgada. Vemos sempre com bons olhos o surgimento em potencial de mais uma arma na luta contra a obesidade e devemos certamente usá-la, quando houver indicação cientificamente confiável, e sempre associada às múltiplas intervenções no estilo de vida visando à perda de peso responsável, saudável e sustentável.

Gostou do texto? Deixe aqui seu comentário.

§ 2 Responses to Victoza: desconfiemos do milagre"

  • Renata Brito says:

    Adorei o artigo. Também acho que todas estas drogas devem ser tratadas com cautela e parcimônia.
    O mais importante acima de tudo é ter saúde. Tomar um medicamento somente para perder peso sem saúde de nada adianta.
    Exercícios físicos e dieta sempre! Trabalho fácil e milagre não existe.

  • Sonia regina says:

    Perfeito e oportuno seu esclareciemnto à nós sobre o assunto!! Vou compartilhar no facebook…