Obesidade e pensamento tudo ou nada: o problema do “jaque”

July 7th, 2011 § 0 comments

por Lilia Bittencourt (psicóloga)

 

 

 

 

 

 

 

O pensamento tudo ou nada é muito presente na vida de grande parte das pessoas com sobrepeso e obesidade. Trata-se da seguinte visão: ou as coisas são feitas exatamente da forma planejada ou nada mais conta.

Quando uma pessoa se programa para frequentar a academia três vezes por semana, por exemplo, se ela falta um dia, já não vê mais sentido em ir nos outros dois. Quando planeja caminhar 30 minutos por dia, ela não vai se tiver apenas vinte minutos disponíveis.

Essa exigência de perfeição é muito “boicotadora” e acaba por trazer muitos prejuízos para a vida dessas pessoas. Como diz Maria Marta, é melhor o imperfeito feito do que o perfeito não feito. Afinal, certamente é muito melhor ir à academia duas ou até uma vez por semana do que não ir nenhuma, assim como é melhor andar 15 ou até 5 minutos do que não andar nada. Muito frequentemente, as limitações normais da vidanão nos permitem fazer o melhor, mas apenas o melhor possível.

Muitas vezes, um ato de comilança começa com o “jaque”: já que eu comi um pastel, então não tem problema acompanhar com caldo de cana, já que eu furei o planejamento alimentar, então vou “liberar geral”. E assim, um pequeno deslize, que poderia ser logo compensado sem grandes consequências, acaba gerando uma sensação de catástrofe, e levando à ideia de que o controle não surtiria mais nenhum efeito.

No pensamento tudo ou nada, o foco está no negativo. No que falta. O positivo deixa de ser contabilizado. Os defeitos ou falhas ganham destaque enquanto as qualidades e os acertos não são levados em consideração.

Com este tipo de contabilidade psíquica, o balanço, é claro, fica sempre negativo. E, dessa forma, reforça cada vez mais a baixa autoestima e, assim, alimenta a manutenção do sobrepeso e obesidade.

A crença errônea de que devem se comportar de forma retilínea dentro do programa alimentar para todo o sempre faz com que esses indivíduos se sintam muito culpados quando cometem qualquer desvio. E é muito comum ouvir desses pacientes: “Fiquei com muita culpa quando não resisti e comi aquele pedaço de chocolate. Isto me deixou muito chateado comigo mesmo, o que me fez acabar comendo a barra inteira. Na verdade me senti um fraco e pensei que é melhor desistir, pois nunca vou chegar lá”.

Outro aspecto perverso do tudo ou nada é que o “tudo” se expressa através de uma dificuldade de escolher – não o que se quer – mais aquilo de que se deve abrir mão.

Faz-se necessário então um trabalho visando uma redução das altas taxas de expectativas desses indivíduos, pois elas são responsáveis por repetidas vivências de fracasso e incompetência. Além disso, é importante o desenvolvimento de padrões mais realistas de auto-avaliação.  É fundamental a consciência de que perfeição é uma ilusão inatingível. A existência de falhas e defeitos faz parte da vida de todos e não deve anular a existência e importância dos acertos e das qualidades. A auto-aceitaçãoé um passo essencial no aumento da autoestima. Vale a pena ressaltar que estamos falando de uma aceitação sem auto-conformismo, sem acomodação.  De um reconhecimento de que há uma questão que precisa de uma dedicação para ser resolvida.

O caminho que leva ao emagrecimento sustentável é feito de vários desvios seguidos de ajustes de rota.

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